segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Oi, lojas que vendam a tal Tolerância, é onde?

Nesta segunda, como faço quase todas as segundas, fui ler a coluna da jornalista Eliane Brum

E lá estava uma reflexão que estou tentando elaborar a semana toda para escrever. Não pelo motivo que a levou a escrever a coluna desta segunda mas por um sentimento que posso dizer é o mesmo que o dela: algo está acontecendo. No meio de uma diversidade de igrejas há algo sendo cultivado a pão-de-ló.  

No texto A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico Eliane usa o dialogo entre um taxista e sua passageira. Aparentemente uma situação corriqueira em que neste caso o taxista era neo-pentencostal e a passageira, ateia. A conversa entre os dois é usada por Brum para falar de um processo de pasteurização cultural ocorrendo em função da multiplicação de igrejas neopentencostais espalhadas nas cidades com a mais diversas características.

Além de me ajudar a elaborar as longas conversas ‘botanezas’ (vindas de meus botões) o texto me fez lembrar muito de um episódio que me aconteceu. Foi quando eu voltava da casa dos meus pais na Região dos Lagos/RJ de ônibus indo para o Rio de Janeiro. Na época, vinha da cerimonia de casamento da minha irmã que havia casado em uma linha religiosa/espiritual/filosófica oriental (não ouso dar definição, por falta de conhecimento), a Ananda Marga. Por coincidência, ou não, né, vai saber, voltei com uma pessoa do meu lado que estava presente na cerimonia. Ela, claro me reconheceu como irmã da noiva. E a conversa se desenvolveu.

Antes de continuar, quero deixar claro aqui, que meus pais foram muito felizes em nos orientar de forma muito aberta sobre religiões e espiritualidades. Ambos tem fortes interesses por temas ligados a essas questões, mas nunca nos disseram que caminho seguir. Meu pai cultivava literatura anárquica em casa misturado a temas de filosofias orientais, e minha mãe, junto com suas próprias práticas diárias espirituais usava o discurso anárquico ao dizer que não precisávamos de nenhuma religião. Veja que nem vou entrar na questão fé, porque aí são outros tostões.

Bom, então estava eu lá lendo quando ‘a pessoa’ se sentou ao meu lado (poltrona numerada) e imediatamente me reconheceu e, como era sabido, puxou conversa.  Ela, a pessoa, por ser instrutora de yoga conhecia meu marido ( é que ele tem um Instituto de Cultura Hindu ) Bom, por aí então a pessoa começou os travessões:

-       -Foi bonita a cerimônia, né?  
-      -Foi. Foi mesmo.
-       -Você não é da Ananda Marga?
-      - Não, não sou.
-       -Mas por que? Nem com sua irmã se casando na religião, você se anima?
-     -Olha, eu tenho amigas e amigos que são da Ananda Amarga, há algum tempo, mas nunca me interessei, não.
-       -Ah, mas qualquer hora dessas Baba fala no seu ouvido.
-       -Ahã!

Bom nesse momento houve um silencio, pude voltar a ouvir a musica que estava no play.
Pouco tempo depois a pessoa voltou a construir os travessões:

-      - Você vai hoje para São Paulo?
-       -Vou, chego no Rio e pego um voo.
-       -Ah. Seu marido é dono do Naradeva, né?
-       -Isso.
-      - Mas eu vi que ele é da Shuddha Dharma, né?
-  -Isso. Desde muito novo. A mãe dele é desde a adolescência e, assim, parece, ele se interessou.
-       -Ah, por isso que você não é da Ananda Marga.
-       -Não é por isso. Até porque eu também não sou da Shudda Dharma.
-      - Mas como? Você não gosta das linhas orientais?
-      - Acho interessante. Leio a respeito, mas não tenho interesse em ser de nenhuma.
-       -Nenhuma? Nem o Hare Krinshna?
-       -Nenhuma.
-      - Mas assim, você então tem alguma religião?
-      - Não, não tenho.
-     - Ah, mas olhe, não se preocupe. Qualquer hora dessas ou Baba ou Shiva vai te tocar e você vai se abrir.
-      - Ahã!

Bom, fim de todos os travessões até o fim da viagem. A pessoa não falou mais.

E mesmo, tendo muitos amigas e amigos evangélicos, nunca se quer passei por algo assim. Mesmo eles sabendo de minhas investidas curiosas em temas de filosofia orientais e de mitologias diversas.  E como Eliane Brum hoje em sua coluna, me senti assim naquela altura. Algo estava errado. O fanatismo solapa a qualquer um.

Fico pensando que se a multiplicação de algumas linhas, e digo, não todas, espirituais/filosóficas/religiosas orientais e tantas outras tivesse o approach que tem as igrejas neopentecostais com sua capacidade de penetração em diversas camadas, se a problemática não ocorreria da mesma forma. E ouso dizer que há novos movimentos nesse sentido com fortes inspirações orientais que cresce muito por aqui no Brasil. E sim, eles tem tal comportamento com quem ‘ainda não foi tocado’. Tem suporte, tem capacidade de penetração, tem dança, tem palavras que tocam. Então esperemos os próximos capítulos.

Penso que tal mal-estar, tanto relatado por Brum como no meu caso, se deve pela identificação da intolerância fomentada pelo fanatismo. Tal combinação sempre moveu massas. E como diria uma professora amiga, ‘o problema está nas humanidades’. E eu complementaria, que seria uma tendência complicada e quase perversa de excluir tudo aquilo que difere de mim. Ou ainda, uma necessidade sufocante de estar inserida em alguma massa que se move tal como um manada.

E impossível não pensar que isso sempre aconteceu. Mas também tal pensamento vem acompanhado da pergunta: mas nunca para?


Mas onde será que se compra em altas doses a tal ‘tolerância’ ?





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