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quinta-feira, 26 de abril de 2012

A velha roupa suja do preconceito

Há mais ou menos uns 20 dias circulava pelas redes sociais uma imagem com uma mensagem pra lá de preconceituosa. Mas era daquelas de alguém que reproduzia a fala que ouviu falar. Bem coisa do preconceito que ganha pernas, mas sem cabeça, né mesmo. 
Bom, pois bem, eis aqui a imagem e as palavras: 



Se você quer que sua casa fique brilhando, tenha uma empregada PITTA, são perfeccionistas; se você quer alguém que cuide das crianças, faça bolo no fim do dia e fique contigo nos próximos 40 anos, tenha uma empregada KAPHA; agora se quer que seus objetos NUNCA sejam encontrados no mesmo lugar e sempre chegue atrasada, tenha uma empregada VATA...mas se tu for muito Pitta não terás empregada porque vai dizer que ninguém faz melhor que ti...



E daí, que se acha que são as religiões institucionalizadas, como os Catolicismos, os neopenteconstalismo e outras fundamentalistas as únicas a reforçar abitrariedades contra os direitos humanos e/ou promovendo e reforçando as diferenças de classe e divisão sexual do trabalho, além de preconceitos e racismos. 


CHOCK de MOSTRO quando o galerê adeptos aos misticismos, Nova era, Yoguis e usuários/terapeutas de terapias complementares como Ayurveda, medicina Tradicional Chinesa, etc saem por aí com discursos conservadores, preconceituosos, misóginos com um show de hipocrisia. Fazem isso quando usam por ex. as filosofias orientais de manutenção da saúde para reforçar seus velhos padrões de classe média. Tipo: 'sou super espiritualizada e respeito a natureza, mas não abro mão da 'minha empregada doméstica' e nem da babá.


E aí galerê do YOGA e do AYURVEDA que ficou divulgando essa imagem com 3 mulheres e empregadas domésticas e os bio-tipos (kapha, pita e vata) do Ayurveda. Se liga, só: isso se chama preconceito de classe. E no ayurveda significa que depois de lançados os dados vocês tem que voltar algumas casas para ter certeza se o que vocês aprenderam foi mesmo ayurveda. Porque meus carxs, país que tem tantas empregadas domésticas a ponto de classifica-las para escolherem a que melhor atende suas necessidades burguesas, é país em que a distribuição de renda é muito desigual. Sinto muito informar, mas se não rever seus conceitos, nem adianta que não vai iluminar.

Bom, daí que não adianta subverter o discurso se não o fizer ao pensamento. Sinto muito, mas me parece a velha roupa suja da hipocrisia.

Mas como acredito que as pessoas tendem mais a estar perto da humanidade, ai vai uma dica para rever os conceitos. 





E além disso recomendo o ótimo post da SrtaBia que é do ano passado, mas continua totalmente atual Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas e nele mostra que a realidade do trabalho doméstico no Brasil mesmo com os direitos possivelmente garantidos é fruto de um Brasil de herança colonial, portanto, essas trabalhadoras reforçam a cara da pobreza brasileira: mulher e negra. 





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Oi, lojas que vendam a tal Tolerância, é onde?

Nesta segunda, como faço quase todas as segundas, fui ler a coluna da jornalista Eliane Brum. 

E lá estava uma reflexão que estou tentando elaborar a semana toda para escrever. Não pelo motivo que a levou a escrever a coluna desta segunda mas por um sentimento que posso dizer é o mesmo que o dela: algo está acontecendo. No meio de uma diversidade de igrejas há algo sendo cultivado a pão-de-ló.  

No texto A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico Eliane usa o dialogo entre um taxista e sua passageira. Aparentemente uma situação corriqueira em que neste caso o taxista era neo-pentencostal e a passageira, ateia. A conversa entre os dois é usada por Brum para falar de um processo de pasteurização cultural ocorrendo em função da multiplicação de igrejas neopentencostais espalhadas nas cidades com a mais diversas características.

Além de me ajudar a elaborar as longas conversas ‘botanezas’ (vindas de meus botões) o texto me fez lembrar muito de um episódio que me aconteceu. Foi quando eu voltava da casa dos meus pais na Região dos Lagos/RJ de ônibus indo para o Rio de Janeiro. Na época, vinha da cerimonia de casamento da minha irmã que havia casado em uma linha religiosa/espiritual/filosófica oriental (não ouso dar definição, por falta de conhecimento), a Ananda Marga. Por coincidência, ou não, né, vai saber, voltei com uma pessoa do meu lado que estava presente na cerimonia. Ela, claro me reconheceu como irmã da noiva. E a conversa se desenvolveu.

Antes de continuar, quero deixar claro aqui, que meus pais foram muito felizes em nos orientar de forma muito aberta sobre religiões e espiritualidades. Ambos tem fortes interesses por temas ligados a essas questões, mas nunca nos disseram que caminho seguir. Meu pai cultivava literatura anárquica em casa misturado a temas de filosofias orientais, e minha mãe, junto com suas próprias práticas diárias espirituais usava o discurso anárquico ao dizer que não precisávamos de nenhuma religião. Veja que nem vou entrar na questão fé, porque aí são outros tostões.

Bom, então estava eu lá lendo quando ‘a pessoa’ se sentou ao meu lado (poltrona numerada) e imediatamente me reconheceu e, como era sabido, puxou conversa.  Ela, a pessoa, por ser instrutora de yoga conhecia meu marido ( é que ele tem um Instituto de Cultura Hindu ) Bom, por aí então a pessoa começou os travessões:

-       -Foi bonita a cerimônia, né?  
-      -Foi. Foi mesmo.
-       -Você não é da Ananda Marga?
-      - Não, não sou.
-       -Mas por que? Nem com sua irmã se casando na religião, você se anima?
-     -Olha, eu tenho amigas e amigos que são da Ananda Amarga, há algum tempo, mas nunca me interessei, não.
-       -Ah, mas qualquer hora dessas Baba fala no seu ouvido.
-       -Ahã!

Bom nesse momento houve um silencio, pude voltar a ouvir a musica que estava no play.
Pouco tempo depois a pessoa voltou a construir os travessões:

-      - Você vai hoje para São Paulo?
-       -Vou, chego no Rio e pego um voo.
-       -Ah. Seu marido é dono do Naradeva, né?
-       -Isso.
-      - Mas eu vi que ele é da Shuddha Dharma, né?
-  -Isso. Desde muito novo. A mãe dele é desde a adolescência e, assim, parece, ele se interessou.
-       -Ah, por isso que você não é da Ananda Marga.
-       -Não é por isso. Até porque eu também não sou da Shudda Dharma.
-      - Mas como? Você não gosta das linhas orientais?
-      - Acho interessante. Leio a respeito, mas não tenho interesse em ser de nenhuma.
-       -Nenhuma? Nem o Hare Krinshna?
-       -Nenhuma.
-      - Mas assim, você então tem alguma religião?
-      - Não, não tenho.
-     - Ah, mas olhe, não se preocupe. Qualquer hora dessas ou Baba ou Shiva vai te tocar e você vai se abrir.
-      - Ahã!

Bom, fim de todos os travessões até o fim da viagem. A pessoa não falou mais.

E mesmo, tendo muitos amigas e amigos evangélicos, nunca se quer passei por algo assim. Mesmo eles sabendo de minhas investidas curiosas em temas de filosofia orientais e de mitologias diversas.  E como Eliane Brum hoje em sua coluna, me senti assim naquela altura. Algo estava errado. O fanatismo solapa a qualquer um.

Fico pensando que se a multiplicação de algumas linhas, e digo, não todas, espirituais/filosóficas/religiosas orientais e tantas outras tivesse o approach que tem as igrejas neopentecostais com sua capacidade de penetração em diversas camadas, se a problemática não ocorreria da mesma forma. E ouso dizer que há novos movimentos nesse sentido com fortes inspirações orientais que cresce muito por aqui no Brasil. E sim, eles tem tal comportamento com quem ‘ainda não foi tocado’. Tem suporte, tem capacidade de penetração, tem dança, tem palavras que tocam. Então esperemos os próximos capítulos.

Penso que tal mal-estar, tanto relatado por Brum como no meu caso, se deve pela identificação da intolerância fomentada pelo fanatismo. Tal combinação sempre moveu massas. E como diria uma professora amiga, ‘o problema está nas humanidades’. E eu complementaria, que seria uma tendência complicada e quase perversa de excluir tudo aquilo que difere de mim. Ou ainda, uma necessidade sufocante de estar inserida em alguma massa que se move tal como um manada.

E impossível não pensar que isso sempre aconteceu. Mas também tal pensamento vem acompanhado da pergunta: mas nunca para?


Mas onde será que se compra em altas doses a tal ‘tolerância’ ?





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